Raízes do Seridó

As raízes são mais fortes, mais sólidas e consistentes que os galhos, as pontas e seus frutos. Na genealogia da vida, a multiplicação da espécie leva suas ramificações com o vento, algumas para perto, outras para mais longe. Enquanto maior grau isso acontece, mais aflora o valor da raíz, que vai ficando no tempo, no mesmo lugar, protegendo sua memória.

Olhamos para o passado e vemos como a cidade era mais bela, como a vida tinha o sabor perdido das tradições, dos nomes, lugares. Em se tratando de Natal, de Brasil, de mundo. Como era “melhor”, substraindo os benefícios tecnológicos. Tentamos preservar as raízes, mas isso tende a ser uma atividade cada vez mais difícil.

O tempo preserva as tradições e raízes ao seu modo, numa linguagem compreensível a todas suas ramificações. Preserva-se a memória, como o que a Grécia foi para nossa civilização. Mas não conseguimos fazer com que as raízes tenham a força aglutinadora pela qual são admiradas. Natal, por exemplo, mais uma metrópole do Brasil, tão longe daquela cidade que algum dia anunciávamos ao mundo. O Seridó, sofrido…Perdeu seu perfume de queijo ou da barragem sangrando. Os ilustres daquilo que chamamos raízes deixam apenas o nome em seu legado.

Porque a raíz tinha também poder. Autoridade. As raízes eram donas e soberanas, variando seu circulo de influencia em proporção a sua tradição. Hoje a “raiz” a que me refiro foi substituída pelo Estado. Ficaram os nomes, os velhos casarões ou novos hotéis, as ruas, os livros de memórias.

Mas isso não é preservar as raízes, é preservar sua memória, contar como elas eram. E nós como ramificações em seus galhos distantes ou em folhas levadas pelo vento, sentimos na pele o que é a expansão demográfica organizada na sociedade moderna de Estados, suas leis e objetivos de bem comum.

O principal que estamos perdendo na vida moderna é de que o Estado foi criado por nós, pelo núcleo primeiro da sociedade, a família, para seu benefício. A família se juntou a outras e formaram uma fazenda, uma vila, um povoado, uma cidade, um município, um estado. A família, entendida aqui como núcleo social e não como lar de pais e filhos, é a raiz que hoje está desprovida de força social para construir seu legado. Aquela raiz que criou o Estado não consegue mais dominá-lo.

Embora adoro ler e aprender sobre nossas raízes, me entristece tê-las perdido, as invejo, e acho que todos perdemos, e nos enganamos achando que preservando sua memória estamos também mantendo sua essência.