Judas Iscariote

Apesar de ser agnóstico, acho o estudo da teologia interessante, mesmo que seja como parte de uma antropologia filosófica. Como os mitos tornaram-se credos, crenças e relatos da história da civilização, ajudam-nos a entender a natureza humana inclusive nos conflitos culturais da atualidade.

Neste campo, os trabalhos de historiadores comprometidos com sua fé devem ser considerados com reserva. Para o cristianismo ou o catolicismo, os agnósticos costumam produzir descobertas mais confiáveis que os legados de Santo Agostinho, os papas ou os primeiros livros editados em monastérios. O problema é que o numero de historiadores ou pesquisadores independentes na idade antiga era bastante reduzido.

Vários escritores modernos, como Jorge Luis Borges na literatura, ou Isaac Asimov no estudo da ciência, promoveram em suas obras os trabalhos de pessoas independentes, que raramente encontravam espaço para a divulgação de suas descobertas. Entre elas destaca-se o religioso alemão Nils Runeberg, da universidade de Lund, em 1904.

Runeberg pesquisou exaustivamente o cristianismo e suas origens, não nos livros bíblicos, mas nos fragmentos de tábuas existentes, em restos de papéis de bibliotecas incendiadas no século dezoito, e até nas inscrições de paredes em ruínas e excavações arqueológicas. Seu objetivo era compreender o conteúdo bíblico da fonte mais fidedigna possível, e não simplesmente aceitar o que tinha sido escrito pelos apostoles, séculos após a morte de Jesus.

Na epígrafe do livro “Kristo ou Judas”, ratifica-se o monstruoso descobrimento feito por De Quincey em 1857: “Não uma coisa, mas todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariote são falsas.”

De Quincey especulou que Judas entregou Jesuscristo para forçá-lo a declarar sua divindade. Runeberg sugere uma vindicação de índole metafísica. Destaca a superfluidade do ato de Judas. Observa que para identificar um mestre que diariamente predicava na sinagoga y fazia milagres acontecerem na presença de milhares de pessoas, não se requer a traição de um homem. No entanto, aconteceu. A traição de Judas não foi casual. Foi um ato premeditado que tem seu lugar misterioso no plano da redenção. O Verbo, ao fazer-se carne, passou da ubiqüidade para o espaço, da eternidade para história. Para corresponder a tanto sacrifício, era necessário que um homem, em representação de todos os homens, fizesse um sacrifício condigno. Judas Iscariote foi esse homem.

Judas, único entre os apostoles, intuiu a secreta divindade e o terrível plano de Jesus. Morrer crucificado. O Verbo tinha se rebaixado ao mortal. Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se a delator, o pior delito da infâmia, e a ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior. As formas da terra correspondem as formas do céu. As manchas da pele são mapas das incorruptíveis constelações. Judas é o reflexo de Jesus. Ambos tiveram uma morte voluntária. Ambos seguiam um propósito complexo, interligado com a vontade do Criador.

O plano de Deus, tal como ensina a Bíblia, era a de enviar um filho para a salvação dos homens. A mãe seria a imaculada Maria, que daria a luz a Jesus. Para redimir os males do mundo, Jesus daria sua vida na cruz. Ambos estavam na terra, Jesus e Maria, em carne e osso, protegidos pelo Espírito Santo. O Pai, pelo que se sabe, não desceu em corpo e sangue, preferindo arquitetar o cosmos desde sua posição divina, aqui e em todo lugar.

Runeberg opinava diferente. Deus também desceu para o mundo dos vivos. De incógnito. Não revelou isso a ninguém. Sabia que só Ele poderia completar a missão na terra. A humanidade é obra de sua criação, todo homem foi criado por Deus, recebendo o livre arbítrio e a vontade de escolher seu destino. O homem pode matar, roubar, mentir e visitar todos os pecados capitais. Mas tinha um destino que Deus não podia deixar com homem nenhum. A traição, entregar seu próprio filho Jesus à morte era um destino cruel demais até para o pior homem que jamais viesse a existir, pois nem o fogo da eternidade seria suficiente para redimir este pecado, nem a bondade infinita de Deus poderia jamais perdoá-lo.

Por isso não existiu um ser humano chamado Judas Iscariote. Judas era, na verdade, o próprio Pai feito homem. Ele assumiu para si a terrível e indesejada missão de sacrificar o próprio filho pela salvação da humanidade. Por isso sua obra foi perfeita. O Verbo feito carne, fez-se homem, mas homem até a infâmia, até a reprovação e o abismo. Para nos salvar, Deus poderia ter escolhido ser qualquer um na trama histórica, Alexandre Magno, Pitágoras ou o próprio Jesus. Mas escolheu um ínfimo destino: foi Judas.

Essa pode ser a explicação pela qual se sabe menos de Judas Iscariote do que de qualquer outro apostole da época. Ninguém sabe de onde veio, de quem era filho nem tampouco se tem registros de suas participações no grupo. Foi extremamente discreto. Há quem diga que Judas, o homem, não está ardendo no nível mais profundo do inferno, como afirmava Dante, mas sentado junto ao Deus Pai e ao filho Jesus, compondo a misteriosa trilogia divina da Santíssima Trindade que sempre foi um dos mistérios divinos jamais revelados. Claro, chamamos a terceira pessoa de Espírito Santo, e de que são todos um só. Mas na verdade, eis a trilogia personificada…o Pai, o Filho e Judas. E São todos um. Judas é Deus e Deus é Judas.

Na terra continuamos agindo como os cristãos e os romanos, queimamos bonecos de Judas em cada celebração da Páscoa, ou escolhemos um Judas em qualquer manifestação de ódio. Para não condenar eternamente o nome de Judas como sinônimo do mal, entre os apostoles havia outro Judas, o bom, chamado Judas Tadeu. Até nisso o plano foi perfeito. Muitas pessoas levam o nome de Judas Tadeu, mas não deve existir nenhum com o nome de Judas Iscariote. Assim como ninguém se chama simplesmente Deus.

Nestes tempos modernos onde todos procuram inspiração para sua fé, não me surpreenderia se surgisse uma igreja chamada algo como “Os seguidores de Judas” ou se no futuro ele começasse a atender preces e a obrar milagres. Há muitas coincidências e mistérios na história religiosa, e certamente estes argumentos não são menos lógicos do que outras tradições que se tornaram aceitas pela fé. Da próxima vez que você se deparar com Judas, o delator, pense que existe a possibilidade dele não ser quem aparenta ser, provavelmente você estará vendo o próprio rosto de Deus.

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